PSICOLOGIA PARA TODOS

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ESTRUTURA E DESENVOLVIMENTO CEREBRAL

Em 1 de Outubro de 2008, fizemos um post no blog PSICOLOGIA PARA TODOS, intitulado A Pedagogia em Portugal, para dar uma opinião pedida por José Carrancudo, no seu magnífico blog EDUCAÇÃO EM PORTUGAL.
Posteriormente, em 6 de Novembro, demos outra opinião no nosso blog, com um post sobre Disciplina, Stress e Aprendizagem.
Neste momento, com o intuito de preparar uma nova publicação intitulada Neuropsicologia na Reeducação, ao recompilar alguns livros editados há muitos anos, vimos dois capítulos que intitulam este post e que podem ter algum interesse para resposta que foi dada nos posts anteriores e que poderão ser uma achega para a nossa resposta no blog de José Carrancudo.
Por isso, reproduzimo-los a seguir.

QUAL A NECESSIDADE DE REEDUCAR?
A razão óbvia e principal da necessidade de reeducar é a de proporcionar à criança o melhor desenvolvimento possível, quer a nível da persona­lidade quer a nível das funções cognitivas e psicomotoras.
A nossa sociedade ocidental faz com que estejamos em permanente «stress» a fim de conseguirmos uma vida aparentemente confortável. A «civilização» pressiona-nos para termos uma casa confortável, bons meios de transporte privado, vestuário à última moda, etc., o que nos instiga a tentar conseguir um ordenado maior, trabalhan­do cada vez mais ou exercendo uma profis­são muito especializada que até pode ser arriscada.
Tudo isto nos provoca uma tensão quase permanente, fazendo com que não tenhamos tempo para o dedicarmos à «casa» e aos «familiares», especialmente aos mais novos que necessitam de bastante afectivi­dade, segurança, apoio, orientação e modelos de actuação.

Mui­tas vezes, ficamos «desequilibrados» sem querer e «descarregamos» as nossas frustrações naqueles que nos cercam. As respostas dos familiares pode­rão ser de compreensão, mas as mais usuais são de desorientação, sob a forma de comportamentos inade­quados. Nestes casos, a intervenção dos psicólogos é importante para restabe­lecer a homeostasia ou equilíbrio no seio familiar e na relação interpessoal.
Para tanto, é necessário que os mais velhos (especialmente pais e mães) compreendam que a sua actuação pode ser a causa fundamental do comportamento inadequado dos filhos. Eliminando as causas os efeitos serão diferentes. Não existe neste caso culpa dos pais, mas sim desco­nhecimento ou incapacidade de proceder de forma diferente.

Porém, com a ajuda em acon­selhamento ou psicoterapia adequada, essa incapacidade pode ser eliminada ou reduzi­da alterando completamente a interacção familiar ou o aproveitamento esco­lar. É indispensável, portanto, que os mais ido­sos reconheçam os factos e não se conside­rem «culpados» mas sim as possíveis «cau­sas próximas» da existência de uma situa­ção inadequada ou indesejável.
Supondo que a criança se encon­tra emocionalmente equilibrada, o insuces­so também pode «bater à porta» porque a aprendizagem não está a ser realizada de modo adequado ou porque o desenvolvimento cerebral não foi o ideal. Os exames e as avaliações psicológicas são um meio de diagnóstico ideal para estas situações. A Bateria Neuropsicológica Luria-Nebraska ou outra equivalente é um dos meios seguros para escrutinar os défices nas capacida­des cerebrais. Não são poucos os casos em que as capacidades cerebrais podem ser melhoradas com uma avaliação atempada e uma reeducação em tempo oportuno. Esta acção não se refere especificamente a crianças «deficientes». Relaciona-se também com crianças «normais» que conseguem do mesmo modo desenvolver as suas potencialidades. Uma melhor compreensão do desenvolvimento cerebral pode dar uma ideia mais clara da situação, tanto no que respeita ao ensino como à reeducação.

De acordo com as teorias mais recentes, o cérebro humano compõe-se de 3 unidades que se desenvolvem em 5 estádios.

A primeira unidade, constituída pelo sistema recticulado e estruturas relacionadas, desenvolve-se desde a concepção, tornando-se operativa 12 meses mais tarde (normalmente aos 3 meses de idade), no final do primeiro estádio do desenvolvimento cerebral. A sua vulnerabilidade, muito grande na fase embrionária dos primeiros meses de formação, pode provocar hiperactividade fisioló­gica não relacionada com factores emocionais e ambientais. Esta primeira unidade é representada pelo sistema recticulado, composto por diversas estruturas entrelçadas que filtram os estímulos, reduzindo ou aumentando a excitação cortical e a activa­ção comportamental. Sendo essencial para a sobrevivência, o seu funcionamento irregular pode conduzir da narco­lep­sia à insónia total.

A segunda unidade, de recepção e integração sensorial, é responsável pelas aprendizagens e capacidades demonstradas na primeira infância e nas provas intelectuais. Divide-se em 3 áreas: primária, secundária e terciária.
A área primária, de recepção sensorial, é geneticamente determinada e corresponde a zonas para onde todos os estímulos são canalizados: auditiva, no lobo temporal, etc., sendo simétrica nos dois hemisférios cerebrais. A área visual situa-se no lobo occipital, a tactilo-cines­tésica no lobo parietal e assim por diante; a sua destruição pode provocar surdez, cegueira cortical ou paralisia. O seu desenvolvimento ocorre nos primeiros 12 meses de vida a partir da concepção, ficando concluído, como na primeira, aos 3 meses de idade, no decurso do segundo estádio do desenvolvi­mento cerebral.
A área secundária, topograficamente correspondente à primária, é capaz de integrar a informação recebida. Os sons da área primária são transformados em fonemas, ritmos e tonalidades na área secundária. As figuras são transformadas em cores, formas, feitios e sensação de movimento. A destruição desta área impede a integração das sensações recebidas, evitando a percepção.
O hemisfério esquerdo dedica-se à análise do material verbal, enquanto o direito se ocupa com a análise das relações espaciais e estímulos musicais. O seu desenvolvimento, no terceiro estádio do desenvolvimento cerebral, iniciado no momento da concepção, vai até aos 5 anos de idade, ligando-se à dominância e à especialização cerebral. A especialização cerebral nas tarefas «verbais» (hemisfério esquerdo) e «não-verbais» (hemisfério direito) verifica-se com a discriminação visual, resposta diferenciada a vozes diversas, coordenação visuo-manual, psicomotricidade, etc., a não ser que lesões muito extensas antes dos 2 anos de idade obriguem à transferência de funções de um hemisfério para o outro. As lesões mais restritas podem ocasionar défices mais profundos sem transferência de funções dum hemisfério para outro.
A área terciária medeia quase todas as capacidades consideradas como «inteligência» que é vulgarmente avaliada atreves de provas psico­lógicas como a de Wechsler. A leitura exige a integração visuo-auditiva, assim como a escrita se baseia na integração visuo-cinestésica. As capacidades gramaticais e sintácticas exigem a integração da abstracção, análise lógica e compreensão das preposições.
O hemisfério esquerdo dedica-se à escrita, leitura, compreensão de símbolos, processos aritméticos, reprodução de figuras complexas e pormenorizadas, enquanto o hemisfério direito se especializa na relação visuo-espacial, na espacialidade global, no cálculo aritmético e na colocação das letras, capacidades verbais espaciais, no reconhecimento facial, no reconhecimento das reacções faciais, emocionais e posturais e na análise de figuras desconhecidas e invul­gares.
Desenvolve-se a partir dos 5 anos até cerca dos 8, no quarto estádio do desenvolvimento cerebral. Algumas lesões situadas nesta área terciária da segunda unidade localizada no lobo parietal, podem não ser detectadas a não ser entre os 8 e os 12 anos de idade. As capacidades académicas de leitura, escrita, cálculo composição gramatical, sintaxe, desenho, lógica, analogia, nomeação, categorização, dimensionalidade, etc., situam-se nesta área. Quando lesionada, pode fazer crer que a criança é «normal» aos 2 anos de idade, evidenciando-se somente cerca de 6 a 8 anos mais tarde como deficiente na aprendizagem. Lesões extensas têm muitas vezes uma recuperação ou readaptação do organismo muito melhor do que as mais circunscritas.

A terceira unidade é também composta por três áreas: primária, secundária e terciária.
A área primária relaciona-se com o impulso eferente do cérebro, enviando os comandos necessários para que os músculos executem determinadas tarefas. O seu de­senvolvimento, realizado no segundo está­dio, fica concluído ao fim de 3 meses de idade ou 12 meses a partir da concepção, em conjunção com o desenvolvimento da primeira unidade. Os reflexos de Moro, preensão, choro, etc., são indícios da conclusão deste estádio, podendo os défices pré ou peri-natais ser total ou parcialmente compensados com o treino de estratégias adequadas.
A área secundária é responsável pela organização e sequenciação dos actos motores em interligação com a primeira área desta unidade e as primeiras duas áreas da segunda unidade. Para tanto, 20 por cento das células da área primária motora são sensitivas ou sensoriais e 20 por cento da área primária táctil possui células motoras, desenvolvendo-se em para­lelo e em interacção a nível comportamental. O seu desenvolvimento no decurso do terceiro estádio, estende-se até aos 5 anos de idade, ligando-se aos conceitos do desenvolvimento e especialização cerebral como no caso da área secundária da segunda unidade. A plasticidade do cérebro pode reduzir os défices com facilidade em casos de lesões extensas, especialmente quando existe treino, mesmo que involuntá­rio. A «anormalidade», muitas vezes, só se verifica na idade escolar, entre os 8 e os 12 anos.
A área terciária identifica-se com os lobos pré-frontais e desenvolve-se no decurso do quinto estádio que se inicia por volta dos 10 a 12 anos e continua pela década dos vinte. Engloba as funções mais elevadas do cérebro dos mamíferos, tais como planeamento, decisão, avaliação, continuidade temporal, controlo pulsional e emocional, concentração da atenção, flexibilidade, criatividade, juízo moral, etc. Recebe informações da área terciária da segunda unidade, bem como da primeira. A possibilidade de obtenção de gratificação a longo prazo e o controlo das pulsões sem imposição exterior ligam-se ao desenvolvimento desta área que, quando operativa, se sobrepõe à primeira unidade para moldar a excitação ao nível do consciente. Os distúrbios do comporta­mento podem ter origem na falta do desen­volvi­mento desta área ou na sua lesão.

O desenvolvimento adequado de todas estas estruturas exige estimulação própria do meio ambiente no momento preciso, sob pena de se comprometerem determinadas funções que não tiveram oportunidade de se exercitar convenientemente. As crianças selvagens são um exemplo concreto da necessidade de estimulação adequada para a linguagem falada que é a nossa base de comunicação. A facilidade ou dificuldade na aprendizagem de uma língua estrangeira e até o sotaque típico de uma região são exemplos flagrantes da necessidade de estimulação, modelagem e treino da fluência verbal e escrita.

Nestes termos, tanto a leitura como a escrita e a psicomotricidade necessitam do bom desenvolvimento e desempenho das capacidades da área secundária que exigem uma modelagem e um treino adequados.

– Como se poderá conseguir este desiderato se não houver modelos e treino suficientes acompanhados de boa memória e repetição dos exercícios?
– Como será possível com PCC&I conseguir a modelagem, a memorização e o treino que são necessários para um bom desempenho?

Até os animais que não são criados com os seus semelhantes adquirem através dos modelos daqueles com quem convivem e imitam, bem como do treino que executam e memorizam, os comportamentos que melhoram o seu desempenho de acordo com a espécie com que convivem, automatizando-se tudo num hábito que facilita comportamentos futuros.

Portanto, para nós, o M&I é importante porque os modelos, os treinos e o reforço obtido no fim de cada acção, são os ingredientes principais para uma aprendizagem profícua, quer da linguagem falada quer de comportamentos mais complicados em que a moldagem também pode ter lugar.

Basta apenas utilizar os exemplos comuns do dia-a-dia:
– Como se treinam os atletas?
– Qual o desenvolvimento das nossas capacidades inatas sem qualquer tipo de treino?  Não estiolam e morrem?
– Se o Selvagem de Aveiron vivesse sempre em «terra civilizada» não teria desenvolvido a sua capacidade de linguagem?
– Se os autistas fossem devidamente treinados não ultrapassariam algumas das suas dificuldades?

Exigir e esperar o desenvolvimento das capacidades ou potencialidades através da «criatividade», sem qualquer treino, parece ser uma utopia.

Espero que tenha dado alguma achega à pergunta que há muito tempo me foi feita por José Carrancudo que assinou no seu blog o post Erros Conceptuais da Escola.

Já leu os comentários?

Ver post LIVROS DISPONÍVEIS

É aconselhável consultar o ÍNDICE REMISSO
de cada livro editado em post individual

Blogs anteriores:

PSY FOR ALL (desactivado) [http://www.psyforall.blog.com]

PSICOLOGIA PARA TODOS [http://psicologiaparaque.blogspot.pt/]

Para tirar o máximo proveito deste blog, consulte primeiro o post inicial “História do nosso Blog, sempre actualizada”, de Novembro de 2009 e escolha o assunto que mais lhe interessa. Depois, leia o post escolhido com todos os comentários que são feitos. Pode ser que descubra também algum assunto acerca do qual nunca tivesse pensado. 

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2 thoughts on “ESTRUTURA E DESENVOLVIMENTO CEREBRAL

  1. CãoPincha on said:

    Já que se fala na estrutura e desenvolvimento cerebral, em que estádio estaremos nós agora em comparação com os suecos ou outros países nórdicos?
    A vida política deles está apresentada no You TUBE, na rubrica A transparência no Parlamento da Suécia.
    Será diferente da transparência «amplamente demonstrada» pelos políticos portugueses de todos os partidos?
    O que dirá um psicólogo que já falou em psicologia social?
    CãoPincha compincha.wordpress.com

  2. Este ano fui encarregada de dar apoio a algumas crianças com dificuldades escolares. Foi bom ter lido este poste. Conjugado com o do conteúdo das obras e os livros disponíveis, deu-me uma visão diferente do modo como devo abordar as crianças. Já tinha lido os três livros editados pela Plátano há bastante tempo.
    Agradeço a vossa colaboração com o blogue.
    Professora de apoio.

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