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O ABADE FARIA

Abade FariaO  meu conterrâneo e nosso compatriota, mundialmente conhecido, Abade Faria, nasceu há 257 anos, em Candolim, Bardêz, GOA.

Foi o principal e único «descobridor» e impulsionador do «sono lúcido» ou da hipnose, que actualmente tem uma utilização muito generalizada e é um dos instrumentos mais úteis para uma psicoterapia rápida  e profunda  ajudando a pessoa a ganhar a sua autonomia.

Publico este post em sua homenagem com a transcrição páginas 133 a 146  do capítulo com o nome do livro a ser publicado, logo que possível, para explanar o tipo de terapia que utilizo.

IMAGINAÇÃO ORIENTADA

– Quando, há anos, dei apoio à minha filha, vi que um dos vossos livros tinha sido prefaciado por Charles Josh Golden. É o
mesmo que está envolvido nesse programa de provas neuropsicológicas que vi em tua casa e que tu começaste a adaptar Imagina-Bpara Portugal?

– Exactamente. O Professor Charles Josh Golden incentivou-me a adaptar, para Portugal, o teste de Luria, e temos duas versões: uma para adultos e outra para crianças a qual já têm dois livrinhos, um para a aplicação e cotação experimental das provas e outro para interpretação e reeducação. Deves ter visto isso no Sucesso Escolar (I). Antes disso, como já disse, tinha traduzido a prova de Halstead-Reitan. Nada disto era do conhecimento dessa psicóloga, que ia fazer a tal investigação com a doente da intervenção em neurocirurgia, só com provas antigas como as de Bender, Rey, etc. Tudo isto me deixou profundamente abalado. Já sabes agora porque desisti da investigação em neuropsicologia em Portugal!Saude-B

“Como tinha de ultrapassar a minha frustração de não conseguir fazer o pós-doutoramento, entusiasmei-me quando li o artigo Hypnotic Psychotherapy, de 1948, de Milton Erickson, publicado no The Medical Clinics of North America. Fui continuando a ler os seus artigos até me vir parar às mãos o seu livro Hypnotherapy, publicado em 1979, em conjunto com Ernest Rossi. Por isso, enquanto acabava a tese, em 1980, uma especialização, em Hipnose Terapêutica, da Baxter Academy, da Austrália, com extensão em Londres, ajudou a envolver-me profundamente na Imaginação Orientada (IO). Entrei para a British Society of Experimental and Clinical Hypnosis (BSECH).
“Consegui compreender que, uma vez descoberto o fio da meada, mais valia explorar o filão do que interromper a psicoterapiaAcredita-B para a reiniciar num outro momento em que a disponibilidade e a recordação do paciente se poderiam desvanecer em relação ao que se estava a tentar resolver. Afinal, em certas circunstâncias, a dilação em tempo, entre uma sessão e a seguinte, poderia diminuir o rendimento da acção terapêutica, não beneficiando o paciente nem os bons resultados da psicoterapia. Verifiquei isso em vários casos e, especialmente nos já publicados e que estão relacionados com a Cidália (C) a Germana e o Januário (L). Contigo, podia ter acontecido o mesmo se fossem interrompidas algumas recordações específicas que estivessem a passar pela tua cabeça. É também por isso que recomendo que o relaxamento não seja bruscamente interrompido.

– Já me aconteceu isso, uma vez que estava deitado no meu maple predilecto e a minha mulher me acordou porque tinha Consegui-B
chegado a casa uma amiga da filha. Não foi fácil voltar a lembrar-me daquilo que estava a tentar resolver naquela ocasião. Só quando mais tarde essa situação exigiu uma decisão de minha parte, lembrei-me parcialmente do que estava a sonhar naquele momento.

– Então, já sabes ao que me estou a referir. Vê lá o «desperdício» que se pode estar a fazer no caso duma psicoterapia. A desvantagem maior é a do paciente, que pode ter de pagar muitas mais consultas e ver atrasada a solução do seu problema, quando o mesmo poderia ter sido resolvido melhor, muito mais cedo e com um dispêndio muito menor (L). Não falo só em dinheiro. Falo no incómodo dos transportes, esperas, falta de eficácia no desempenho de cada um e, às vezes, mau relacionamento com o meio ambiente familiar, profissional e social. Afinal, com o prolongamento da sessão de psicoterapia quem pode estar a perder é apenas o psicólogo que faz menos consultas Joana-Benquanto o paciente ganha em tempo, economia e resultados (E/101).

Com esta explicação, o Antunes continuou a nossa conversa perguntando-me porque é que me tinha lembrado do termo Imaginação Orientada. Expliquei-lhe que “guided imagery” é uma designação utilizada por Erickson e descrita no seu livro «Hypnotherapy» que é uma psicoterapia com hipnose clínica. É o procedimento com que ele ajudou os pacientes a recordar e a reviver as memórias que escondem os «segredos» das suas desventuras (E), chegando a passar horas com eles. Disse ao Antunes que não gostava da designação de hipnoterapia para mencionar a hipnose clínica, porque esta é um instrumento psicoterapêutico, do mesmo modo como são um computador, um bisturi, um martelo ou uma enxada. Também lhe expliquei que tinha gostado imenso de ler os Maluco2inúmeros casos relatados por Erickson e Rossi e que a minha decepção anterior me tinha incitado a aprofundar esta matéria, tanto mais que eu desejava melhorar os meus procedimentos psicoterapêuticos. Por isso achava que, para mim e para a minha maneira de proceder, desde 1977, estava mais certo «explorar» a Imaginação Orientada (IO) para programar o futuro através da autohipnose. Ouvindo a minha conversa com atenção, perguntou-me:
Também, nunca mais me falaste no Abade Faria que desenvolveu a hipnose. Podes dizer-me alguma coisa acerca disso?
– Com muito gosto, mas só se tiveres tempo e paciência para me ouvir e deixares socorrer-me de alguns apontamentos porque aquilo que te posso relatar é muito extenso.Psicologia-B

Então, a imaginar pela tua prevenção, enquanto coliges os apontamentos, vou preparar umas bebidas que serão necessárias.
Muita coisa que eu não sabia, tinha chegado ao meu conhecimento através do magnífico livro de Egas Moniz O ABADE FARIA na História do Hipnotismo e, apesar de ter apresentado a sua estátua no livro “SAÚDE MENTAL sem psicopatologia(A/15-16), preparado à pressa para as aulas no ISMAT, não lhe dera o devido relevo.Psicopata-B

Então, já que estamos aqui sentados para a «maratona», explica-me tudo o melhor que puderes e quiseres.
– Ganha fôlego suficiente para aguentares tudo porque, para se entender os primórdios do estudo e prática da hipnose, vou seguir quase totalmente os magníficos escritos de Egas Moniz, com um historial quase completo, mas sucinto, da vida do Abade Faria.
“Como deves ter visto no original do SAÚDE MENTAL sem psicopatologia (A), o estudo do «magnetismo animal» foi iniciado em 1765, por Franz Anton Mesmer, que teve distinção na sua tese sobre «A influência das estrelas e dos planetas no poder curativo».
“Mesmer obteve algumas curas em doentes com dor de dentes, retenção de urina, paralisia esporádica, etc. O modo teatral e o
cerimonial utilizado por ele, atraíam muita gente que, às vezes, entrava em convulsões e se dizia «curada» dos seus males Depressão-Bconsiderados incuráveis. Isso originou uma reacção hostil dos seus colegas médicos que o forçaram a abandonar Viena obrigando-o a fixar-se em Paris. A sua baqueta e a água «mesmerizada», descritas por Deleuze, tentavam elevar a arte da sugestão a uma prática científica. Contudo, quando a classe médica teve conhecimento de que doentes de toda a Europa se dirigiam para as sessões de Mesmer, insurgiu-se contra a situação fazendo com que uma comissão de investigação declarasse que essa não era uma prática científica. Foi então publicado um decreto que excluía da prática de medicina todo aquele que praticasse o magnetismo animal, o que obrigou Mesmer a abandonar Paris.
“O padre Gassner, que também tentou, sem resultado, fazer reviver, duma maneira espectacular as ideias de Mesmer, caiu neuropsicologia-Brapidamente na descrença.
“Depois de muitos anos de esquecimento, o Marquês de Puységur, coronel de artilharia em Estrasburgo, tentou fazer reviver essas ideias, em 1787, pressupondo que a característica principal deste estado era uma espécie de sono em que as ideias ou as acções da pessoa magnetizada podem ser orientadas pelo magnetizador. Contudo, Bertrand descreveu este estado como totalmente dependente da imaginação do sujeito magnetizado.
“Nessa época, em Paris, onde foi mais conhecido como l´Abbé Faria, o padre José Custódio de Faria, distinguiu-se como notável «magnetizador» utilizando as técnicas da hipnose.
“Esse meu conterrâneo, como disseste, José Custódio de Faria, era filho legítimo de Caetano Vitorino de Faria, Interacção-B30
descendente do brâmane Antu Xenoi (Xenoi = mestre, professor, escrivão, canonista) (Sá, 2010) convertido ao catolicismo cerca de dois séculos antes e bem integrado na burguesia de Bardez (Goa). Estando a seguir a carreira eclesiástica e tendo chegado a tomar as ordens menores, o pai do Abade Faria deu-se de amores com Rosa Maria de Sousa, filha única do abastado proprietário Alexandre de Sousa, de Candolim (Bardez). Abandonando a carreira clerical casou-se em 1754, ficando como genro comensal (gorzaúim) na casa do sogro. Teve um filho em 30 de Maio de 1756 – José Custódio de Faria.
“Entretanto, o casal foi-se desentendendo e, depois de avolumar muitas incompatibilidades cuja causa e conteúdo se desconhece, separou-se de comum acordo passados sete anos, por volta de 1764. O pai de José Custódio voltou a abraçar o Psi-Bem-Csacerdócio e a mãe ficou como freira no Convento de Santa Mónica, em Velha Goa, onde chegou a ser prioresa. Em consequência deste incidente, enquanto alguns biógrafos dizem que o Abade Faria é filho ilegítimo de padre e de freira, outros esclarecem que é filho legítimo de pais que se separaram e passaram a ser padre e freira depois do seu nascimento.
“Depois do seu desenlace conjugal, Caetano Vitorino de Faria voltou com o filho para a sua casa de Colvale mas, passado algum tempo, resolveu rumar para Lisboa, em 1771, no navio S. José, acompanhado do seu filho de 15 anos. Servindo-se de cartas de apresentação trazidas consigo de Goa, começou a relacionar-se com figuras altamente cotadas, chegando a criar amizade com o Núncio Apostólico a quem apresentou uma Memória sobre as missões da Índia.Difíceis-B
“Conseguiu alcançar as boas graças de D. José I e, em 1772, pai e filho seguiram para Roma com cartas de recomendação para que José Custódio de Faria fosse educado em Roma e que o pai também conseguisse atingir o grau de doutor em Teologia. Logo que terminou os estudos em Roma, Caetano Vitorino regressou a Lisboa em 1777, onde conseguiu muito boa aceitação no meio aristocrático e na Corte.
“José Custódio de Faria continuou a estudar como interno no Colégio da Propaganda Fide, concluindo o seu doutoramento em 1780 com a defesa de tese “De Existencia Dei, Deo uno et Divina Revelatione” dedicada à rainha D. Maria I e seu esposo D. Pedro III. Foi ordenado padre em 12 de Março de 1780. Para mim, foi interessante verificar que eu tinha defendido a minha tese em 1980, passados 200 anos. Logo que regressou a Lisboa, onde foi bem recebido no meioOrganizar-B
aristocrático, conseguiu pregar na Corte.
“Um curioso incidente marcou a sua primeira pregação. Ao subir para o púlpito, rodeado de muitas personagens de elevada categoria social, enervou-se de tal maneira que se esqueceu do discurso. O pai, que estava próximo, apercebendo-se da situação, gritou para o filho em concani, em tom bem audível: “Hi sogli bhâji; kator re bhâji!” (literalmente, «É tudo hortaliça; corta a hortaliça»). Isto animou o filho que continuou no púlpito para realizar o sermão.
“Caetano Vitorino, permaneceu 10 anos em Lisboa pretendendo uma mitra que nunca alcançou até que em 1788, ficou desenganado em relação a muitas sugestões que dera ao longo do tempo para as nomeações dos dignitários da Igreja. Quando, em Goa, se deu a revolta denominada a «conjuração dos Pintos» − antepassados do eminente Professor Respostas-B30Oftalmologista Gama Pinto −, que era uma sublevação contra a dominação portuguesa considerada má, tanto sob o ponto de vista militar como civil e governativo, na qual ele também estava implicado, foi internado no Convento dos Paulistas onde assistia como sacerdote.
“José Custódio de Faria, a fim de obter apoio para os conjurados que estavam a ser julgados na Índia, fugiu para Paris a pedido de seu pai, pretendendo encontrar-se com os embaixadores de Tipú Sultão que, recebidos por Luis XVI, em 13 de Agosto de 1788, não obtiveram sucesso.
“As ideias revolucionárias que José Custódio de Faria demonstrava possuir, despertavam em Paris a atenção dos seus vizinhos, que o denunciaram à polícia, nada se provando contra ele. Entretanto, colocou-se à frente de um dos batalhões de revolucionários, tendo tomado parte na queda da Convenção durante a Revolução Francesa, o que o deixou, emmario-70
1802, nas boas graças do Directório.
“Também segundo as informações do citado livro (Moniz, 1977), Faria deve ter conhecido nessa época o Marquês de Chastenet de Puységur, que fora um dos discípulos de Mesmer e com quem se iniciara nas práticas mesmerianas e do sonambulismo.
“Sabe-se que entre 1802 e 1811, data em que foi nomeado Professor de Filosofia da Academia de Marselha, o Abade Faria continuou as suas investigações sobre o magnetismo, sofrendo muitos sucessos e insucessos até que voltou a Paris em 1813, depois de ter passado por Nîmes.
“A partir de 1813, começou a fazer conferências e cursos na rua de Clichy, nº 49, cobrando 5 francos por cada entrada. O Abade Faria acompanhado por uma espécie de enfermeira, trabalhando com quatro ou cinco jovens habituadas às práticas hipnóticas,Bibliofazia experiências relacionadas com as doutrinas do magnetismo e sonambulismo com os epoptas ou iniciantes. Conseguiu assim desenvencilhar-se das anteriores crenças sobre o magnetismo e sobre os fluidos astrais. Foi o modo de demonstrar que o sono lúcido (hipnótico) não deriva de quaisquer fluidos magnéticos ou forças especiais dos magnetizadores mas sim da susceptibilidade dos indivíduos hipnotizados. Disse também que “Nada se desenvolve no sono lúcido que saia fora da esfera natural” e “Faremos ver que nada há neste fenómeno que ultrapasse os limites da razão humana e que tudo é concebível por pouco que o homem queira dar-se, de boa-fé, à investigação da verdade” (Moniz, 1977).
“Demarcou-se assim da antiga crença de magia e feitiçaria, afirmando que nas práticas sonâmbulas tudo depende de causas naturais sem a intervenção de quaisquer forças misteriosas. Quando o Abade Faria afirma: “Dizer que o magnetismo só produz «Educar»-Bbem-estar é um aforismo imprudente; com as melhores intenções podem produzir-se consequências funestas”, podia estar a referir-se a casos em que «acontecem desgraças» como a seguinte.
“Uma vez, uma jovem que tinha o braço direito paralisado, depois de ter sido desenganada pelos médicos, que não lhe descobriam qualquer compromisso orgânico, resolveu procurar os serviços de um hipnotizador. Ficou satisfeita por ter conseguido, através da hipnose, movimentar lentamente o braço até se ver completamente livre da sua paralisia. Porém, quando entrou num surto de depressão profunda na qual mergulhava de vez em quando, foi para a cozinha e pegando numa faca afiada, espetou-a no peito esvaindo-se em sangue (ver blog <psicologiaparaque.wordpress.com>). Felizmente, o golpe não foi fatal nem profundo e conseguiu ser socorrida a tempo. Só com uma psicoterapia de profundidade, conseguiu melhorar do seu estado de depressão. A paralisia do braço devia ser um Depress-nao-Bmecanismo de defesa (A) de que ela se servia para não tentar o suicídio do qual se lembrava em momentos de seu estado depressivo profundo.
“Egas Moniz também diz que “O padre Faria proclamou uma verdade, quando ainda ninguém ousava encarar o problema do sonambulismo terra-a-terra, sem intervenções de fluidos ou de forças sobrenaturais”. Porém, só em meados do século XIX, o neuropsiquiatra francês J. M. Charcot, veio confirmar as doutrinas de Faria dizendo que “fez boa ciência médica, dando justa interpretação às práticas magnéticas, orientando-as no bom sentido, classificando factos e mostrando aspectos novos do problema.”
“Mesmer, o iniciador das práticas de magnetismo e dos fluidos magnéticos, que se deviam assemelhar mais às macumbas ou às molhar2práticas espíritas, fez fama com as suas sessões no meio fútil e doentio da grande capital francesa. Porém, nos últimos tempos, quando a princesa Lambaele, amiga da rainha, assistiu desinteressada às demonstrações de Mesmer e o príncipe Henrique da Prússia nada sentiu sob a influência dos fluidos do magnetizador, a descrença começou a avolumar-se. Suspenso de exercer medicina, abandonou Paris em 1785, deixando atrás de si uma aura de desconfiança e de charlatanismo.
“Até o próprio Abade Faria disse: “Eu não posso conceber como a espécie humana foi procurar a causa deste fenómeno à tina de Mesmer, a uma vontade externa, a um fluido magnético, ao calor animal ou a outras extravagâncias ridículas deste género”.
“Depois de abandonar Paris, Mesmer deambulou por Inglaterra e Alemanha acabando por morrer rico mas esquecido, numapsicoterapia2 pequena cidade do antigo ducado do Suabo, na Áustria (Moniz, 1977).
“O Abade Faria, não desejando fazer fortuna com o cultivo e exibição da sua descoberta do sonambulismo, – o que tinha acontecido com Mesmer – continuou com a consciência tranquila por não mentir e por ter realizado obra sincera, estando sempre na senda da verdade. Afirmou categoricamente que “só se podem hipnotizar as pessoas predispostas a sê-lo, acrescentando que “só havia a contar com as qualidades dos epoptas (iniciados), de nada servindo as pretensas qualidades que atribuíam aos hipnotizadores”.
“Mal compreendido pela sociedade de então, o Abade Faria passou, infelizmente, os últimos tempos da sua vida com dificuldades, pobre, sofrendo desenganos, dichotes, desconsiderações e até chacota pública, com a exibição da peça Magnétismomanie representada, em 1818, no teatro Variétés, de Paris.stress2
“Viveu o fim da sua vida numa casa hospitaleira de recolhimento, em troca dos seus serviços religiosos. O Abade Faria, quase na miséria, morreu aos 63 anos, em 1820, vitimado por uma apoplexia fulminante, sem ter visto publicado o seu livro «De la cause du sommeil lucide ou Étude de la nature de l´homme» dedicado ao Marquês de Puységur (Faria, 1819), não sabendo também o que fora feito dos restantes dois volumes de que falou e que se julga estarem escritos.
“O General François Joseph Noizet, discípulo do Abade Faria, que testemunhou as experiências e actividades levadas a cabo pelo seu mestre, admirou-se que nenhum desses três volumes fosse publicado. No ano do seu falecimento, em 1820, apresentou à Academia Real de Berlim uma Memória sobre o sonambulismo, expondo claramente as ideias do mestre, homem2trabalho esse que foi devidamente divulgado, só em 1854.
“O Abade Faria, que tomou parte na Revolução Francesa, foi mais tarde referido por Chateaubriand no seu livro «Mémoires d´outre tombe”. Também Alexandre Dumas imortalizou-o como o prisioneiro do Castelo de If, no seu livro «O Conde de Monte Cristo».
“Como homenagem dos seus concidadãos goeses, foi descerrado com grande solenidade, em 20 de Novembro de 1945, um monumento simbólico, na praça com o seu nome, em frente do Palácio do Hidalcão, em Pangim, GOA, cuja fotografia também já viste. Na cerimónia da inauguração, o Dr. Adolfo Costa, referindo-se à razão da homenagem, disse: “a fim de se perpetuar a memória de quem pelos altos voos metafísicos das suas lucubrações filosóficas e em suas sessões experimentais de grande valor prático, foi o descobridor DIA-A-DIA Bdo método da sugestão no hipnotismo e o demolidor das doutrinas do magnetismo animal que Mesmer, doutor em Medicina pela Universidade de Viena, defendera nos centros científicos em Europa” (Moniz, 1977).
“Só depois da morte de Faria em 1820, Foissac assediou a Academia das Ciências com o tema das experiências de sonambulismo. Depois de muita discussão, apenas em 1826, o Hotel Dieu foi aberto às experiências, passando as Faculdades de Medicina a preocuparem–se com o assunto, para depois surgirem divergências entre as escolas de Nancy e de Salpêtrière.
“Muito mais tarde, só em 1841, o médico-cirurgião de Manchester, James Braid, acompanhado de um seu colega, viu uma rapariga entrar em transe. Não acreditando no que estava a ver, surpreendeu-se com o resultado que obteve no sentido Suces-esc-Bpositivo, quando ele próprio efectuou a experiência num dos seus pacientes que se ofereceu para o efeito. Posteriormente, verificando os mesmos fenómenos na sua própria esposa, rendeu-se à evidência, apesar de ter classificado anteriormente as demonstrações de M. Lafontaine como um insulto à inteligência e à ciência.
“Passados quase 20 anos sobre a morte de Faria, só em 1843, Braid publicou o seu tratado sobre «Neurhypnologia: tratado do sonambulismo nervoso e hipnótico». Acerca disso, Egas Moniz afirma que “a obra de Braid é a reprodução da de Faria salvo pequenas diferenças…. Faria delineara a hipnose, mais de 20 anos antes, sem lhe dar esse nome mas sim o de sono lúcido.
“Esta publicação de Braid, ajudou a proclamar o seu trabalho como braidismo do mesmo modo como se falava antigamente do mesmerismo. Porém Liébault, da Escola de Nancy, desejando repor a verdade, classificou as doutrinas de Faria como Apoio-Bfariismo, que se destacam do mesmerismo e antecedem em mais de 20 anos o braidismo. Os autores de língua inglesa é que se esquecem da cópia que o braidismo assumiu a partir do seu antecessor: → o fariismo.
“Resumindo todo este arrazoado de ideias e factos, posso dizer que a hipnose, experimentada e estudada, de facto, pelo Abade Faria no início do século XIX, é um processo a que cada um se pode submeter voluntariamente, por si próprio, ou com o apoio dum «operador» que esteja devidamente qualificado para o fazer. É um processo natural sem nada de artificial, invulgar ou espetacular.
Às vezes, até somos capazes de entrar em hipnose sem o sabermos (E).
“É inadmissível que quase todos os livros sobre hipnose não dêem proeminência ao Padre Faria que foi o seu grande, reed2primeiro e único impulsionador sério. Trabalhou com base experimental e científica num sentido médico para fins terapêuticos, apesar de ser sacerdote católico e professor de filosofia e não de medicina. Falam sempre de Joseph Braid e pouco do Abade Faria.”

A hipnose pode ser utilizada na prevenção em psicoterapia?
Infelizmente, utilizamos a psicoterapia como fazemos com o tratamento do emagrecimento na época das férias. No resto do ano, temos a obesidade porque não existe uma profilaxia. Só nos lembramos também da psicoterapia quando o mal está instalado em vez de nos precavermos contra ele com a «vacina» fácil que está sempre ao alcance de todos com muita leitura e alguma prática (P) (Q).Adolescencia-B
“Comparando estes dois tratamentos, no emagrecimento, é necessário fazer exercícios e manter a dieta, ao passo que na prevenção em psicoterapia, basta treinar inicialmente durante umas semanas e criar um sinal condicional que nos ponha em relaxamento apenas 5 minutos depois de ir para a cama. O resto pode ser entregue aos cuidados da autohipnose que serve bem para isso.”
Gostei da tua «arenga» que custou aguentar, mas tenho interesse em saber mais alguma coisa sobre Freud e a psicanálise de que ouço falar muito. reed2
Freud, de ascendência judaica, nasceu em Friburgo, em 1856, na antiga Checoslováquia, pertencente ao império austro-húngaro. Formou-se em medicina e especializou-se em neurologia, começando a colaborar com Breuer. Entusiasmou-se com o trabalho em hipnose desenvolvido por Charcot e tentou utilizar este método quando se dedicou ao caso de Bertha Pappenheim, mais conhecida como “Anna O“, que era paciente de Breuer, com quem ele colaborou. Como não se deu bem com a utilização da hipnose, foi começando a desenvolver o método catártico, porque descobriu que a paciente aliviava os seus sintomas com a livre associação de ideias.
“Dedicando-se então ao seu método catártico, delineou e aprofundou a teoria psicanalítica, em que valorizou os sonhos, os casos2mecanismos de defesa, os recalcamentos, os traumatismos e os problemas sexuais, especialmente, os vividos em criança. Com isso, conseguiu apenas aliviar alguns dos sintomas com que se diagnosticou a histeria em Anna O, mas não curou a paciente, que continuou a ser medicada, facto que foi descoberto muito mais tarde, em 1972, pelo investigador H. F. ELLENBERGER.
“Foi assim que surgiu a teoria e a metodologia da psicanálise, valorizando exageradamente a sexualidade em todos os casos. É provável que o próprio Freud tenha tido imensas dificuldades sexuais no meio familiar em que estava inserido e num ambiente cultural bastante preconceituoso em que viveu a sua infância.
“Pouco mais sei sobre Freud a não ser as noções e experiências dele, expostas em meia dúzia dos seus livros, lidos à pressa, em francês, para a minha disciplina de psicopatologia, do curso de psicologia clínica.”pratica2

E a logoterapia de que falas, achas que é importante?
– Para mim, é importantíssima.
“Viktor Frankl, nascido em Viena em 1905, passou a corresponder-se com o nosso amigo Segismundo, em 1920, apenas com 15 anos. Enquanto estudante de medicina, encontrou-se pessoalmente com Freud e passou a frequentar o círculo da Association de Psychologie Individuelle, de Alfred Adler, da qual S. Freud foi expulso por divergir das ideias de Adler. Entre 1933 e 1936, Victor Frankl foi director do pavilhão de mulheres suicidas do hospital psiquiátrico de Viena e quando os nazis tomaram o poder, sabotou as ordens de proceder à eutanásia dos doentes teoria2mentais ao seu cuidado.
“Deportado, em 1942, para um campo de concentração diferente do da mulher que estava grávida, só no fim da guerra tomou conhecimento do falecimento dela, por esgotamento. Perdeu também os pais e o irmão nos campos do Holocausto nazi.
“Foi nos campos de concentração que Victor Frankl, divergindo do princípio do prazer utilizado por Freud na sua psicanálise, e do princípio do poder utilizado por Adler na sua psicologia individual com base no pensamento de Nietsche, desenvolveu a sua teoria sobre a logoterapia baseando-se no princípio do significado de cada um, delineado na sua análise existencial.
“Nos 25 anos seguintes ao fim da guerra, Victor Frankl foi o director da policlínica de neurologia de Viena. Doutorou-se em previsão2filosofia em 1948 com o tema «O Deus Inconsciente».
“Em 1970, fundou o seu primeiro instituto de Logoterapia na Universidade de San Diego, na Califórnia, EUA, onde deu seguimento às suas ideias sobre a necessidade de cada um descobrir o sentido da sua vida.
“Para situarmos isto connosco em termos práticos e actuais, repara que, para não teres o sentimento ou complexo de inferioridade deixando a família desamparada no caso do teu falecimento – tal como aconteceu com a morte do teu pai –, resolveste a tua possível frustração com um exagero de trabalho na financeira. Foste parar ao outro pólo em que te sentiste completamente descontrolado e ias desorganizando toda a tua família. Só quando tiveste consciência disso, através dos sintomas na tua filha, que não pareciam estar minimamente ligados a ti, resolveste a situação, em parte, com o apoio reeducativo que lhe deste. A partir daí, com o confl2relaxamento, a autohipnose e a Imaginação Orientada conseguiste entrar no teu inconsciente para conseguires descobrir o sentido da tua vida descobrindo os traumas antigos que minavam a tua existência. Através dessa consciencialização e da compreensão dos mecanismos psicológicos, bem como da visão do futuro a partir dos erros do passado, conseguiste «entrar nos eixos» donde talvez seja difícil «descarrilar» (B). Estou certo?

Não me disseste que, com a publicação dos primeiros 4 livros (A) (B) (C) (D) a reformulação de outros e o acrescento de novos «casos», queres preparar uma colecção para a Biblioterapia? O que é isso? Tratamento acom livros? Como é que isso é possível?
Antes de tudo, tu já deste a resposta com a resolução do «teu caso» (B). Mas, repara que, embora isso seja possível, não compr-Cservem quaisquer livros, mas alguns direccionados no sentido de ajudar a pessoa a resolver o problema por si própria ou com pouca ajuda, como aconteceu com a Cidália (C). Esse tipo de abordagem, tal como se fala em hipnoterapia, em que a hipnose é apenas um instrumento, exige auxiliares que são livros específicos. Quaisquer outros, podem não resolver o problema se não o agravarem. Porém, como tem de ser dado um nome sintético a este método de trabalho, chamo-lhe Biblioterapia, para encurtar a designação, quando, de facto, é uma TERAPIA ATRAVÉS DE LIVROS. Têm de ser livros específicos, bem direccionados e compreendidos pelo interessado, acompanhados de treino e de persistência para continuar, não sem bastante humildade para analisar e compreender as dificuldades, razoabilidade para engendrar soluções e persistência para vencer os obstáculos. É por isso que o blog que estou a preparar para incluir todos os livros da colecção, não se vai chamar Biblioterapia, embora possa utilizar essa designação para algum livro, ou figurar no facebook, a fim de divulgar este tipo de ajuda de que mais pessoas possam beneficiar.

Antunes, calou-se e não disse mais nada.arvore-2

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Ver também o post LIVROS DISPONÍVEIS

É aconselhável consultar o ÍNDICE REMISSIVO de cada livro editado em post individual.

Blogs relacionados:

TERAPIA ATRAVÉS DE LIVROS [http://livroseterapia.wordpress.com/]

PSICOLOGIA PARA TODOS (o antigo) [http://psicologiaparaque.blogspot.pt/]

Para tirar o máximo proveito deste blog, consulte primeiro o post inicial “História do nosso Blog, sempre actualizada”, de Novembro de 2009 e escolha o assunto que mais lhe interessa. Depois, leia o post escolhido com todos os comentários que são feitos. Pode ser que descubra também algum assunto acerca do qual nunca tivesse pensado.

Para saber mais sobre este blog, clique aqui.

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7 thoughts on “O ABADE FARIA

  1. Anónimo on said:

    Este artigo é muito interessante. Julgava que a hipnose tinha sido descoberta por Braid. Obrigado pela informação.

  2. Agora que estou quase no fim das minhas férias, às vezes, sem possibilidade de me juntar ao nosso grupo, estou a terminar a publicação da transcrição dos textos do interessante livro de Rui Mateus.
    Acho que quase cumpri uma obrigação durante as minhas férias. Leiam essas transcrições, que podem dar muita informação política.
    Acabei de, nos intervalos, também consultar o vosso blogue e gostei imenso do artigo sobre “O Abade Faria”. Não conhecia essa versão.
    Vou-me embora depois do feriado mas, se fosse possível, gostaria de ler alguma coisa sobre a vossa técnica de imaginação orientada utilizada na psicoterapia.
    Será possível saber alguma coisa sobre a prevenção que se pode fazer em psicologia, já que a minha vida lá fora é muito exaustiva e chega ao ponto de fazer desistir? Quando é que sai o livro?
    Felicidades,
    CãoPincha

    • Já que é do vosso interesse, vou ver se consigo transcrever, amanhã, alguma coisa sobre a prevenção ou profilaxia. Entretanto, posso dizer que muitos dos textos sobre Profilaxia, Prevenção, Psicoterapia, Auto-terapia, Modificação do comportamento, Relaxamento e alguns outros, podem dar uma boa ideia sobre a profilaxia que se pode fazer. É só darem uma vista de olhos pela História do Nosso Blog e ir escolhendo os artigos mais apelativos.
      Boa viagem de regresso ao trabalho, melhor trabalho e um retorno para breve.
      Boa sorte em tudo.
      Mário de Noronha

  3. M. de Noronha on said:

    http://ebx.sh/1hSLkjc Isto, a localização e o número, fizeram-me lembrar a teoria da psicanálise e o incosciente ou subconsciente ao quel é muito difícil chegar e não se vislumbra de fora por causa da «maquilhagam» que toda a gente ui«tiliza. Cuidado psicoterapeutas! https://psicologiaparaque.wordpress.com/…/05/30/o-abade-fa…/

    Prisão de luxo em ‘barracão’
    Ex-primeiro-ministro vive num edifício descrito na Conservatória Predial como tendo um barracão onde está agora uma moradia.
    CMJORNAL.XL.PT

  4. Mário de Noronha on said:

    Pela primeira vez ouvi, em público uma pessoa profissionalmente honesta, não espectacular e a lembrar-se do Abade Faria e não de Braid. https://www.youtube.com/watch?v=NDNwEpcFN84

  5. N. Skinner on said:

    Foi um dos primeiros a explorar com precisão e técnica a mente humana.

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